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       1.   Bouçã deriva do latim Bouçana, que significa conjunto de bouças. Não é por acaso que por vezes aparece nos livros de Visitações com a grafia Bouçãa.   Bouça pode ser sinónimo de terreno de mato ou inculto mas o Dicionário Lello Universal diz que é também sinónimo de “um terreno murado ou delimitado por pedras ou montes de terra, em que se cria mato para várias aplicações e pinheiros e carvalhos”.

Talvez também outras árvores, pois, a Monografia do Município Penelense, de que já falei, diz que os franceses estiveram na Quinta da Bouçã, onde cortaram o olival para dar de comer aos cavalos.  Deve tratar-se de uma bouça de oliveiras.

 

      2.  Esta localidade é muito antiga e com valor histórico. Na resposta ao inquérito formulado pelo Padre Luís Cardoso, em 1758, o Padre Cipriano Ferreira nomeia a capela deste lugar como sendo do povo, tendo como padroeira a Senhora do Socorro. E diz que “está junto do dito lugar para a parte norte”. Penso ser a mesma de hoje, que pode ser vista neste site em http://www.cumeeira.net/cum-patrimonio2.asp. Naturalmente  com muitas modificações operadas ao longo do tempo.

 

       3.  Voltando ao exército francês de Napoleão Bonaparte  sabe-se que acampou nesta localidade onde assustou tudo e todos e fez importantes estragos. Os

habitantes ainda hoje têm conhecimento disso e contam algumas histórias que não tirei ainda a limpo.

Um dos casos, e talvez o mais grave, é que enforcaram o padre Francisco Antunes, cura da Ateanha, e nascido neste lugar, que tudo leva a crer fosse o dono da casa cuja foto coloquei em cima deste apontamento, pois esta casa tem na entrada as iniciais J H S (Jesus Hóstia Santa) e já existia ao tempo, pois a sua traça arquitectónica, com janelas de avental, revela-nos isso. Talvez ele fosse mesmo o dono da Quinta da Bouçã, que os franceses devastaram.

A Monografia do Município Penelense diz que foi sepultado na referida capela do lugar da Bouçã, a 23/03/1810, fez, pois, há pouco duzentos anos.

 

     4. Essa data assinalei-a aos presentes na Eucaristia da Festa à Senhora do Socorro, no passado dia 11 de Abril de 2010, que teve boa presença e participação de residentes e outras pessoas ligadas a esta localidade.

Uma curiosidade que assinalei também na altura foi que a Festa tem muito longa tradição de ser feita no Domingo da Pascoela e este ano ainda se pôde manter nesta data.

 

     5. Um dos naturais desta terra, e que não está de todo esquecido dos seus conterrâneos, é o famoso Tuna. Eis o que nos diz Delfim José de Oliveira

autor de "Apontamentos Históricos e Archeologicos" - "Noticias de Penella", publicado em 1884:

 

“Manoel José Ferreira Tuna, proprietário que foi da quinta da Bouça e casado com Maria Rosa das Ferrarias, nas­ceu na Bouça a 3 de Fevereiro de 1782 e ahi faleceu a 23 de Set. de 1851.

Foi artista notável: carpinteiro, entalhador, esculptor, architecto e musico. Riscou e construiu o coro e o coreto de forma piramidal, e fez o plano da torre singela e elegante da Igreja de Nossa Senhora da Guia, do Avellar, con­celho de Figueiró dos Vinhos. E d'elle a melhor obra de talha que na mesma igreja se vê e lavrou a cantaria da Torre.

Planeou outras muitas construcçoes e em algumas del­las trabalhou com o próprio cinzel, designadamente no palá­cio dos Salazares da Louzam, e a obra principal - feita por ele - é o pórtico desse palácio.

O Tuna era corpulento e foi mestre da única philarmonica que em 1828 havia no concelho”.

Sabe-se que era muito dado a festas e amigo das pessoas e que a alcunha Tuna que o povo lhe dava com carinho por o considerar bom músico a meteu ele no seu nome.

 

6. Esta povoação nunca foi muito povoada. A Monografia do Município Penelense atribui-lhe 31 fogos e 121 pessoas no princípio do século XX.

Actualmente terá nela a residir de forma habitual umas 25 pessoas em cerca de 15 fogos. E, sem pessoas, pouco se poderá fazer para a preservar. Mas é pena, pois alguns edifícios mereciam ser restaurados na traça original.

 

                O pároco: Manuel Ventura Pinho

 

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