Cabeça Redonda
Lagoa da Cabeça Redonda (Foto na internet - de Paolo PGI) |
1. A Cabeça Redonda recebe. o seu nome por estar situada no cimo de um alto mais ou menos redondo e grande. Portugal tem muitas povoações com o nome de Cabeço ou Cabeça. Cabeço significa que esse monte é relativamente pequeno. Cabeça, quando é grande. Um pouco como ramo e rama. A terminação em a de algumas palavras portuguesas vem às vezes do plural neutro latino, e, por isso, é que nesse caso significa algo de grande. Esta povoação está num alto (um planalto) com uma cota de pouco mais de 300 metros.
2. A Capela da Senhora da Encarnação já é nomeada com a mesma invocação no Questionário respondido pelo cura da Cumeeira, Padre Cipriano Ferreira, que a situa entre as Figueiras Podres e a Cabeça Redonda e diz pertencer aos povos daqueles lugares. O mesmo diz que metade deste lugar de Figueiras Podres pertence à freguesia de Cumeeira. As respostas ao inquérito são de 20 de Maio de 1758. O portal da referida capela está datado de 1757. (Ver fotos desta Capela em http://www.cumeeira.net/cum-patrimonio3.asp .
3. A Monografia do Município Penelense refere uma determinação de 1776 de Autoridade Superior, que dá a posse de chaves e bens da Capela só à família Rodrigues da Cabeça Redonda. Este problema deve ter sido levantado por não haver uma Comissão encarregada da mesma ou se abrir a Capela para Missas não autorizadas pelo pároco da Cumeeira. É que a referida Determinação decreta que só pode ter Missa depois da da Igreja e o capelão só pode ser o da Igreja da Cumeeira sob pena de excomunhão.
Vejo por este decreto que as gentes desta terra e circunvizinhas faziam grande falta se não fossem à igreja da Cumeeira. Lembro-me de ouvir dizer ao Padre Luciano o mesmo, há uns vinte e tal anos. E hoje é capaz de ser ainda assim.
4. Dei já conta atrás que o Padre Cipriano Ferreira escreveu em 1758 que metade do lugar de Figueiras Podres pertencia à Cumeeira. Mas esta divisão eclesiástica e administrativa daquele lugar não deve ter agradado a uns tantos, que pediram a sua unificação. Daí o Decreto real de 07-09-1895 que o unifica como pertencendo todo à freguesia de Torre de Vale de Todos para fins civis. Mas religiosamente ficou como estava. Conheço várias pessoas nascidas naquele lugar que dizem que a sua vida sacramental de crianças e jovens foi toda feita na Cumeeira. O padre Carlos Castela das Figueiras Podres, infelizmente já falecido, sempre se considerou pertencendo à Cumeeira. Professou mesmo com o nome de Frei Carlos da Cumeeira, como se usava na altura entre os Frades capuchinhos ir ao nome da sua freguesia.
Em 1913, sucedeu mais um episódio que dá conta do mal-estar daquelas gentes: todos fecharam as portas pela Visita Pascal ao pároco da Cumeeira e pediram ao pároco da Torre que lhes fizesse a bênção das casas, ao que ele anuiu com o argumento de que o pároco da Cumeeira não tinha acatado as ordens dos bispos portugueses de os padres não receberem pensão do estado. Havia na altura um confronto forte entre os governantes da 1.ª República e a igreja. O Estado tinha nacionalizado as próprias igrejas e capelas e achava que os padres deviam ser seus funcionários. Foi o que valeu ao padre da Torre. Doutro modo o mais certo era ser suspenso da sua actividade de pároco. (Isto está relatado no "Livro de Ccorrespondência Expedida" do Arciprestado de Ansião.
Deixo aqui um àparte: foram muito poucos os párocos da diocese de Coimbra, creio que só três, que desobedeceram às ordens recebidas dos Bispos. E estava em causa a sua sustentação, que agora era só assegurada pelas ofertas do povo. E nem mesmo no tempo de Salazar a igreja portuguesa aceitou que os padres recebessem um "ordenado" do Estado, contrariamente ao que sucede ainda hoje em vários países da Europa.
O certo é que as Figueiras de S. João (outrora Figueiras Podres) pertencem hoje na totalidade à Torre..
5.Uma curiosidade: parte do Pião de Cima (hoje só da Lagarteira) chegou a pertencer à Cumeeira. O mesmo sucedia com o lugar de Pé da Serra, que não sei onde ficava, mas também estava dividido entre Lagarteira e Cumeeira,
Carrasqueiras creio que ainda hoje pertence a três freguesias: Cumeeira, Lagarteira e Ansião.
Nos princípios do século XX, a Cabeça Redonda tinha 47 fogos e umas 180 pessoas. Hoje tem 50 fogos, mas as pessoas são bastante menos.
No entanto pode gabar-se de ter serviços que poucas aldeias têm: restaurante, café e mercearia.
O pároco: Manuel Ventura Pinho